Janeiro Branco: campanha nacional sobre saúde mental diz respeito também ao ambiente de trabalho

Ao longo do mês, portais da JT vão divulgar matérias que destacam decisões judiciais e reflexões sobre o tema

08/01/2026 11h57, atualizada em 08/01/2026 12h13

O início de um novo ano nos remete à sensação de recomeço e nos convida a refletir, traçar planos e projetar mudanças. É nesse contexto que surge o Janeiro Branco, campanha que busca estimular a reflexão, o diálogo e o cuidado com a saúde mental, incentivando as pessoas a falar sobre emoções, sofrimento psíquico, qualidade de vida e prevenção de transtornos como ansiedade, depressão e burnout.

A data foi institucionalizada por meio da Lei 14.556/2023, que prevê ações nacionais para abordar e promover hábitos e ambientes saudáveis e prevenir doenças psiquiátricas, com enfoque especial na prevenção da dependência química e do suicídio. A campanha alerta para a importância de não ignorar sintomas ou sinais de fragilidade emocional e mental, quebrar tabus e fortalecer uma cultura de cuidados constantes, seja na vida familiar, social ou organizacional.

Durante todo este mês, os portais da Justiça do Trabalho vão publicar matérias com decisões judiciais que abordam a temática da saúde mental, como forma de ampliar o debate e chamar a atenção para a importância do cuidado emocional no ambiente de trabalho. A proposta é sensibilizar a sociedade, empregadores e trabalhadores para os impactos do adoecimento mental e mostrar o papel da Justiça do Trabalho na proteção da dignidade humana e na promoção das relações de trabalho mais saudáveis e equilibradas.
 

Afastamentos vêm aumentando a cada ano


Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados em setembro de 2025, revelam que mais de um bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais, e a ansiedade e a depressão são as condições mais prevalentes.

Em complemento a isso, o Ministério da Previdência Social (MPS) registrou um crescimento alarmante dos afastamentos por saúde mental no Brasil: em 2024, foram concedidas 472 mil licenças, 68% a mais que em 2023. Com relação a 2025, dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) mostram um aumento de 143% nos afastamentos do trabalho por transtornos mentais.

Entre as doenças que mais geraram benefícios por incapacidade temporária, novamente, se destacam a depressão e a ansiedade. Juntas, elas somam quase meio milhão de casos, o maior número em pelo menos 10 anos.

Os números só comprovam como as pessoas estão cada vez mais adoecidas mentalmente e apontam para a urgência de politicas institucionais de acolhimento e prevenção, uma vez que as consequências desses transtornos  vão muito além do afastamento do trabalho.
 

Reconhecer limites é primeiro passo
 

Em meio a metas e expectativas, muitas vezes ignoramos os sinais de adoecimento emocional. O bem-estar individual é diretamente influenciado por pressões constantes, excesso de trabalho, insegurança financeira, conflitos nas relações, falta de reconhecimento no trabalho e o desafio de equilibrar vida pessoal e profissional.

Segundo a psicóloga Ana Letícia Clemente Tavares, do TST, um ambiente de trabalho saudável deve ser um espaço de reconhecimento, de cooperação e de possibilidade de expressão tanto das nossas potencialidades quanto dos nossos limites. “Reconhecer limites não é uma fragilidade. Ao contrário, é um ato de responsabilidade e de cuidado fundamental para a preservação da saúde mental”, explica. “O sofrimento surge, muitas vezes, quando a pessoa é levada a negar seus próprios limites para atender a demandas  excessivas e metas inalcançáveis”.
 

Investimento em bem-estar melhora resultados


Manter uma cultura organizacional que valorize o bem-estar é essencial não apenas por empatia, mas porque reduz riscos e custos e melhora resultados. Empresas que investem na promoção de um ambiente de trabalho saudável também tendem a reduzir o absenteísmo, aumentar a produtividade e obter ganhos econômicos. O cuidado com a saúde mental do trabalhador, portanto, vai além do impacto social e influencia diretamente os resultados e a sustentabilidade das organizações.

Segundo Ricardo Franco, vice-presidente de saúde e bem-estar no trabalho da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH/DF), o mundo do trabalho assistiu, nos últimos anos, ao aumento dos afastamentos por adoecimento mental sem efetivamente ser capaz de interromper esses eventos. “A única forma de antecipação, em nível corporativo, é a organização implementar uma Governança de Riscos Corporativos (GRC), que inclui gestão e gerenciamento de riscos em diversas categorias”, explica.

Ao implementar essa ferramenta, a organização passa a contar com um sistema prático e estruturado de prevenção ao adoecimento mental relacionado ao trabalho. “Isso envolve desde a definição de um objetivo estratégico específico  voltado à prevenção da saúde e bem-estar do trabalhador, com metas claras e alcançáveis, até a  qualificação de gestores e líderes hábeis para conduzir suas equipes sem comprometer a saúde dos profissionais”, assinala.  “Além disso, é necessário operacionalizar mudanças adequadas para adaptar o trabalho ao trabalhador, e não o contrário.”.
 

Sinais de alerta não devem ser ignorados
 

Os indicadores de saúde mental no ambiente de trabalho são os aspectos da organização que dizem respeito às condições e às relações de trabalho que podem afetar a saúde mental, física e social das pessoas. Sentimentos de ansiedade, depressão, irritabilidade, desânimo, perda de interesse pelo trabalho, incompetência e fracasso são sinais de alerta que podem vir acompanhados de manifestações psicossomáticas, como dores musculares, dor de cabeça,  distúrbios gastrointestinais, alterações do sono e fadiga.

De acordo com Ana Letícia, lidar com esses sentimentos é um processo delicado que não deve ser ignorado. “A pessoa deve adotar algumas estratégias de cuidado e proteção, como legitimar e reconhecer que o sofrimento existe, tem sentido e que é preciso procurar ajuda”.

Nesse sentido, algumas ações podem ser adotadas de imediato, tais como:

  • Romper o isolamento e buscar espaços de fala: falar sobre o que se vive no trabalho é fundamental;
  • Compartilhar experiências com colegas de confiança, coletivos de trabalho ou espaços institucionais de escuta que permitam elaborar o sofrimento;
  • Buscar apoio especializado quando necessário. Quando o sofrimento se intensifica, é importante procurar apoio profissional;
  • Cultivar relações positivas: manter contato com familiares e amigos de confiança fortalece a rede de apoio;
  • Praticar o autocuidado: reservar um tempo para atividades prazerosas e relaxantes promove uma sensação de bem-estar e tranquilidade.


Janeiro Branco

 
A campanha Janeiro Branco surgiu em 2014, em Minas Gerais. Ela foi idealizada pelo psicólogo Leonardo Abrahão como forma de colocar a saúde mental em foco, aproveitando o simbolismo de "página em branco" do primeiro mês do ano como momento de reflexão e recomeço.
 

Onde buscar ajuda 


A saúde mental é parte integrante do Sistema Único de Saúde (SUS). Diversos serviços gratuitos estão disponíveis:

  • Unidades Básicas de Saúde (UBS): o primeiro passo é buscar atendimento com um clínico geral na UBS mais próxima, que pode encaminhar o paciente a um psicólogo ou psiquiatra;
  • Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): oferecem atendimento especializado com equipes multidisciplinares;
  • Clínicas-Escola de Psicologia: universidades que oferecem cursos de Psicologia dispõem de clínicas onde alunos supervisionados por professores oferecem atendimentos gratuitos ou a preços acessíveis;
  • Centro de Valorização da Vida (CVV): o CVV proporciona apoio emocional 24 horas por dia, por meio do telefone 188 ou pelo chat online no site oficial.
     

Texto: Andrea Magalhães (Secom/TST), com edição da Secom TRT-SC
 

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