Ativista e assessora de políticas públicas LGBTQIAPN+ da Prefeitura de Florianópolis falou durante evento no TRT-SC, com participação também de integrante do Comitê de Equidade do Ministério Público do Trabalho
A inclusão no trabalho não termina na contratação. Ela passa pela forma como colegas, chefias e empresas respondem a situações de preconceito e garantem espaço para que cada pessoa possa ser quem é. A reflexão foi apresentada nesta quarta-feira (30/9) no TRT-SC durante palestra de Selma Light, mulher trans, ativista e assessora de políticas públicas LGBTQIAPN+ da Prefeitura de Florianópolis.
A atividade abriu o evento “Para além das diferenças: Diálogos sobre diversidade”, promovido pelo Programa de Equidade de Raça, Gênero e Diversidade (PED), em parceria com a Escola Judicial.
A palestrante, que também é artista e presidente do Conselho de Direitos LGBTQIAPN+ da capital catarinense, falou a partir de experiências pessoais e de sua atuação na formulação de políticas públicas.
Para além dos conceitos
A palestra começou pela apresentação de conceitos, como a diferença entre gênero e sexualidade. Selma relacionou essas questões a situações do cotidiano, abordando desde formas de tratamento até aspectos envolvendo direitos e acesso ao mercado de trabalho.
Ela explicou como lidar, por exemplo, quando o nome que consta em um documento não corresponde à forma como a pessoa se apresenta. Para Selma, o primeiro passo é simples: sorrir e perguntar “como posso te ajudar?”, sem antecipar pronomes ou fazer suposições. Depois, se necessário, perguntar qual nome a pessoa gostaria que fosse utilizado.
Em caso de dúvida, segundo Selma, o mais importante é conduzir o atendimento respeitando a forma como cada pessoa se identifica.
Responsabilidade do empregador
A questão, porém, vai além das relações individuais e também está presente no ambiente profissional. As barreiras podem começar no acesso às vagas, mas não terminam com a contratação.
A ativista relatou que é comum pessoas LGBTQIAPN+ precisarem esconder relacionamentos, controlar a própria aparência ou evitar falar sobre a vida pessoal para não se tornarem alvo de comentários e discriminação.
É nesse ponto que, para a palestrante, aparece uma responsabilidade essencial do empregador: não ser indiferente diante da discriminação. Se um cliente desrespeita um trabalhador LGBTQIAPN+, por exemplo, a empresa não deve simplesmente considerar que “o cliente tem razão”. É preciso reconhecer o ocorrido, intervir e proteger o empregado.
A mesma lógica vale para as relações internas no ambiente profissional. Selma Light defendeu o acolhimento de diferentes identidades, o enfrentamento de piadas e constrangimentos e a garantia de oportunidades para que as pessoas não precisem se esconder.
Ao final, deixou uma reflexão sintetizando a proposta da palestra. “O mundo já é diverso, o que ainda precisamos construir é um mundo que respeite essa diversidade”.
Necessidade de rótulos
“Tudo é sobre respeito.” Foi a partir dessa ideia que o integrante do Comitê Regional de Equidade do MPT-SC, o analista judiciário João Agostinho de Oliveira Filho, abordou as relações entre gênero, raça e sexualidade. Para ele, o respeito é maior que o amor, porque não pode ser negociado ou relativizado. O palestrante também destacou que todas as pessoas têm o direito de ocupar todos os espaços, mas ainda existe uma pressão da sociedade, muitas vezes em tom de crítica, que leva à necessidade de rótulos. “Por que isso? Nós somos seres humanos como todos os outros”, questionou.
Ao falar sobre raça, João destacou que o privilégio é um lugar no qual a pessoa branca já nasce, enquanto a pessoa negra precisa conseguir entrar. Também abordou a forma como o corpo negro foi historicamente tratado como propriedade e mercadoria, citando a psicanalista Isildinha Baptista Nogueira, para quem o corpo da mulher negra é marcado pelas heranças da escravidão no Brasil. Segundo o palestrante, a sociedade foi construída a partir de um conceito de família que não considerou a estrutura familiar negra. “Ninguém é melhor que ninguém”, afirmou.
Pessoas não são listas
Na fala de abertura, o coordenador do Comitê de Equidade, desembargador Hélio Bastida Lopes, disse que a sociedade está iniciando um processo de inclusão mais efetivo, saindo do campo teórico para o prático.
Em relação ao papel da Justiça do Trabalho, afirmou que, além de distribuir Justiça, a busca incessante por justiça social, inclusão e igualdade é o que deve realmente estar em primeiro plano.
“A diversidade costuma ser apresentada como uma lista de características, mas pessoas não são listas, são histórias. Duas pessoas podem pertencer a um mesmo grupo e ter diversas experiências completamente diferentes. O problema é quando uma diferença começa a ser transformada em uma desvantagem injusta, é isso o que precisamos aprender a perceber”, analisou.
Ao final, foi realizada uma roda de conversa que contou com a participação de Selma Light, João Agostinho, do desembargador Hélio Bastida, do juiz do TRT-SC Armando Luiz Zilli e da representante da ONG Mães pela Diversidade, Maria do Carmo Amorim Vieira.
Resistência e afirmação
Ao final do evento, foi inaugurada na Sala Multiuso do Tribunal Pleno a exposição “Amor, Respeito e Expressões de Diversidade”, organizada pelo Atelier Smith. De acordo com o texto de apresentação, as obras consistem em impressões fotográficas enriquecidas por aquarela e técnicas mistas, criando um diálogo visual que transcende as barreiras da percepção.
“A exposição não é apenas uma mostra de arte, mas sim um ato de resistência e afirmação. Ela busca engajar o público em discussões sobre raça, gênero e diversidade, incentivando a construção de um ambiente mais inclusivo”, afirmou o desembargador Hélio Bastida, um dos autores.
Carlos Nogueira e Priscila Tavares
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