Seminário realizado no TST alerta para como os jogos de aposta, a sobrecarga de tarefas e o assédio redefiniram os riscos ocupacionais no Brasil
As transformações tecnológicas mudaram a forma de trabalhar e também os riscos aos quais os trabalhadores estão expostos. Pressão constante, sobrecarga, assédio, conflitos entre vida profissional e pessoal, transtornos mentais e a popularização das apostas on-line passaram a exigir uma nova compreensão sobre o que significa garantir um trabalho seguro.
Esses foram alguns dos desafios discutidos no seminário “Transformações do Trabalho Seguro na Sociedade Tecnológica e seus Reflexos na Justiça do Trabalho”, realizado na quarta-feira (30), na sede do Tribunal Superior do Trabalho (TST), em Brasília. O TRT-SC foi representado pelos gestores regionais do Programa Trabalho Seguro (PTS) em Santa Catarina, o desembargador Cesar Luiz Pasold Júnior e o juiz Ricardo Jahn, além da coordenadora da Saúde do tribunal servidora Dolores Cunha Amorim.
Ao longo do evento, especialistas defenderam que a prevenção do adoecimento mental precisa ir além do cumprimento das normas e considerar os fatores psicossociais presentes na organização do trabalho e nas novas tecnologias.
Pressões invisíveis
O ambiente de trabalho pode favorecer o adoecimento mental. O juiz do Trabalho Cláudio Freitas, do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (RJ), enfatizou que pressão constante por resultados, jornadas excessivas, assédio, bullying, conflitos entre trabalho e família fazem parte dos riscos psicossociais.
O magistrado explicou que o adoecimento mental relacionado ao trabalho pode se manifestar de diferentes formas, como depressão, estresse pós-traumático, fadiga física e mental, alterações no ciclo do sono e transtornos cognitivos.
Em 2025, aproximadamente 545 mil afastamentos relacionados ao trabalho tiveram como principais causas depressão e ansiedade. As mulheres foram as que mais se afastaram, com idade média de 41 anos.
“A prevenção não se limita à identificação de acidentes ou lesões físicas, mas envolve também as relações profissionais, a pressão por resultados e a possibilidade de desconexão. As condições em que o trabalho é realizado podem contribuir para o adoecimento e revelar falhas na organização das atividades. Nós estamos normalizando os absurdos”, afirmou o magistrado.
Cultura do respeito
Ao abordar o assédio nas organizações, a psicóloga Lis Soboll, doutora em Medicina pela USP e pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), defendeu que o problema não pode ser compreendido apenas como uma relação entre agressor e vítima, mas como reflexo da cultura organizacional.
“O assédio é um modo de viver e trabalhar que permite essa atitude. Não se trata apenas de um comportamento individual, mas de um contexto coletivo que vai nos empurrando para o assédio e para outros adoecimentos mentais”, detalha.
Para a especialista, enfrentar o problema exige substituir a cultura da sobrecarga, da solidão e da competição por relações baseadas em diálogo, reconhecimento, cooperação, confiança e valorização da inteligência coletiva.
“As normativas não vão salvar nossa saúde mental e nossas relações. O meio mais poderoso de prevenção das patologias mentais no trabalho não depende dos médicos ou psicólogos. Depende do respeito e da consideração para com os outros, da ajuda mútua, do saber viver, do viver juntos e da solidariedade”, conclui Lis Soboll.
Apostas e ludopatia
O crescimento dos jogos de azar e a ludopatia estiveram entre os temas que mais chamaram atenção da plateia. O jogo deixou de estar restrito ao lazer e passou a afetar também a vida familiar, financeira e profissional de vários trabalhadores brasileiros.
Referência brasileira em jogo patológico e fundador do Ambulatório de Jogo Patológico do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq-USP), o psiquiatra Hermano Tavares explicou que o transtorno do jogo é uma condição médica caracterizada pela perda de controle, pela insistência em recuperar perdas por meio de novas apostas e pelo uso do jogo como forma de aliviar emoções negativas.
A palestra de Hermano Tavares ocorreu cinco dias após o governo proibir o funcionamento das bets em todo o país, por meio da Medida Provisória 1.394/2026. Até então, segundo o especialista, cerca de 20% dos brasileiros apostavam regularmente e aproximadamente 4% da população já apresentava comportamento problemático relacionado às apostas. Entre os apostadores on-line, um em cada cinco desenvolveu transtorno do jogo, proporção semelhante à observada entre usuários de cocaína, por exemplo.
Neste cenário, a migração das apostas presenciais para as plataformas digitais quadruplicou o risco de desenvolver dependência. Hermano Tavares explicou ainda que o ambiente digital foi concebido para estimular a permanência. "O jogo de azar é uma peça de engenharia psicológica.”
A rapidez entre a aposta e o resultado, bônus promocionais, recompensas aleatórias e mecanismos que criam a sensação de controle favorecem o comportamento compulsivo.
Segundo o psiquiatra, a facilidade de acesso que os usuários tinha também fez com que as apostas invadissem a rotina profissional. "O comprometimento profissional é severo, pois o jogador compulsivo adoece a ponto de gastar todo o seu dinheiro e não conseguir nem mais trabalhar".
Hermano Tavares destacou também que o transtorno ultrapassa o indivíduo e alcança toda a família. Além dos prejuízos financeiros, familiares sofrem com estresse, piora da saúde mental e dificuldades para manter suas próprias atividades profissionais.
Sofia Martinello (Secretaria de Comunicação Social do TST)
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