Competência, sensibilidade social e humanidade: comunidade jurídica lembra legado de Ione Ramos

Primeira mulher a presidir o TRT-SC, desembargadora aposentada faleceu aos 88 anos, após 37 anos dedicados à Justiça do Trabalho

25/05/2026 13h20, atualizada em 25/05/2026 15h02
Arquivo pessoal de Adriana Ramos

Competência, sensibilidade humana, integridade e compromisso com a dignidade do trabalhador. Essas marcas aparecem em relatos que ajudam a compor a trajetória da desembargadora aposentada Ione Ramos, a partir de olhares de colegas da Corte, servidores e servidoras da Justiça do Trabalho e da advocacia trabalhista. Ela faleceu sábado (23/5), aos 88 anos.

Ione Ramos é uma das figuras centrais na história da Justiça do Trabalho catarinense. Foi a primeira mulher a presidir o Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região (TRT-SC), de março de 1988 a março de 1990. Também comandou a Corregedoria Regional entre 1996 e 1998, além de ser a única mulher na composição inaugural da Corte, instalada em Santa Catarina em dezembro de 1981.

Em nota publicada no último domingo (24/5) no portal da instituição, a presidente Teresa Cotosky registrou que “o TRT-SC, neste momento de dor, solidariza-se com familiares, amigos, colegas e todos que conviveram com a desembargadora Ione Ramos”.

 

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Duas mulheres sentadas à mesa de jantar, em um restaurante, posam para a foto.
Desembargadora com a servidora Adriana Ramos. Foto: arquivo pessoal de Adriana Ramos

 

Olhar dos colegas
 

Quando juiz de primeiro grau, o desembargador Hélio Bastida Lopes foi convocado com frequência para atuar no gabinete da magistrada durante seus afastamentos por férias e licenças. De acordo com ele, a trajetória de Ione Ramos foi marcada por “integridade, sensibilidade humana e profundo compromisso com a Justiça”. Ele destacou a capacidade da magistrada de unir a sobriedade e a técnica da função a uma postura “empática, solidária e acolhedora”.

A desembargadora aposentada Viviane Colucci, amiga pessoal de Ione e colega na Corte, também ressaltou a dimensão humana da magistrada. Para ela, é difícil se despedir de “uma pessoa tão luminosa”, lembrada por sua sabedoria, elegância, gentileza e pela forma competente com que exercia a magistratura.

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Foto em preto e branco mostra, em uma visão de perfil, uma mulher assinando um documento, sendo observada por outros três homens sentados à mesa.
Ione Ramos na posse como juíza titular, em 1979. Foto: Arquivo Institucional do TRT-SC


 Aprendizado e respeito
 

Entre os servidores que trabalharam com a desembargadora, a lembrança também é de aprendizado e respeito. Adriana Ramos, que atuou por nove anos com a magistrada, afirmou ter aprendido muito sobre a aplicação dos princípios do Direito do Trabalho. Segundo ela, que não tem grau de parentesco com a magistrada, as decisões de Ione Ramos “tinham compromisso com a dignidade do trabalhador e buscavam corrigir a desigualdade econômica existente na relação entre empregador e empregado”.

Já o servidor Duclerque Aguiar definiu como “uma honra e um grande privilégio” ter trabalhado com a desembargadora. Em seu relato, destacou a formação humanista, a sabedoria e a inteligência da magistrada, além da gentileza no trato com os servidores. Para ele, Ione ensinava a “enxergar o mundo com humanidade” e tratava cada pessoa com “respeito elevado”.

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Foto mostra sete homens e uma mulher posando para a foto em uma sala de julgamento. Eles estão de pé e todos vestem toga.
Desembargadora foi a única mulher a fazer parte da primeira composição do tribunal, instalado em dezembro de 1981. Foto: Arquivo Institucional do TRT-SC


 

Reconhecimento da advocacia
 

A advocacia trabalhista também registrou pesar pela morte da desembargadora. Divaldo Luiz de Amorim, com quase 40 anos de atuação na área, afirmou ter convivido com Ione Ramos como julgadora, corregedora e presidente do TRT-SC. Em todos esses cargos, segundo ele, a magistrada atuou com competência, distinguindo-se pela sensibilidade social e pela entrega à missão de julgar.

Para Amorim, a aposentadoria da desembargadora já havia deixado uma lacuna difícil de preencher. Com o falecimento, ele afirma que esse sentimento se aprofunda, deixando um “vácuo e uma saudade duradoura”.


 

Trajetória
 

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imagem em preto e branco de uma jovem senhora. ela está de lado, como se mirasse o horizonte

Natural de Santa Maria (RS), Ione Ramos dedicou 37 anos à magistratura trabalhista, numa carreira iniciada em 1971.  Antes de ingressar na magistratura, atuou na Universidade Federal de Santa Maria, onde foi escrevente datilógrafa, escriturária, oficial de administração e chefe de setores administrativos ligados ao Instituto de Patologia e ao Centro de Ciências Biomédicas.

Já no TRT-SC, atuou nas Juntas de Conciliação e Julgamento de Florianópolis, Itajaí, Blumenau e Brusque, até ser promovida em 1979 a juíza titular da 2ª VT de Florianópolis. Em 1981 chegou, pelo critério de merecimento, à desembargadora.

Durante sua gestão na Presidência, contribuiu para a ampliação da estrutura da Justiça do Trabalho em Santa Catarina, com a aprovação do anteprojeto de lei que criou 11 novas Juntas de Conciliação e Julgamento no estado.

Sua administração também foi marcada por investimentos em modernização tecnológica, com aquisição de microcomputadores e outros equipamentos de informática, e pela inauguração da atual sede do TRT-SC, na Rua Esteves Júnior, em Florianópolis, em 11 de dezembro de 1989. A magistrada se aposentou em 14 de fevereiro de 2008.
 

Ione Ramos deixa quatro irmãos. Ela era solteira e não tinha filhos. 
 

 

 

Carlos Nogueira
Secretaria de Comunicação Social do TRT-SC
Divisão de Redação, Criação e Assessoria de Imprensa 
(48) 3216-4000 - secom@trt12.jus.br 
 

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