"É muito difícil sonhar com o que você não sabe que existe", afirma primeira ouvidora do STF

Durante abertura do ano letivo da Ejud-12, juíza Flávia de Carvalho disse que a busca pela carreira foi uma questão de sobrevivência, e não sonho

06/03/2026 18h22, atualizada em 06/03/2026 19h36
Ariel Quint

A Escola Judicial do Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região (Ejud-12) realizou, na tarde desta sexta-feira (6/3), em Florianópolis, a aula inaugural do ano letivo de 2026 com a palestra “Gênero, raça e as jurisvivências dos corpos diante da lei”, ministrada pela juíza do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) Flávia Martins de Carvalho, que também atua como juíza auxiliar do Supremo Tribunal Federal (STF). O encontro ocorreu na Sala de Sessões do Pleno do TRT-SC, com transmissão ao vivo.

Assista ao vídeo com os melhores momentos do evento.

Flávia de Carvalho é doutora em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo (USP), onde também desenvolve pesquisas nas áreas de Filosofia do Direito, Direito e Literatura e estudos sobre raça e gênero. Professora e escritora, ela também integra redes internacionais de pesquisa e formação de lideranças.
 

Sensibilidade necessária


Ao longo da exposição, a juíza destacou que a interpretação jurídica exige sensibilidade para compreender as trajetórias das pessoas que chegam ao Sistema de Justiça.

“A gente aprende lá nos primeiros períodos da faculdade que sentença vem de sentir. E parece que ao longo da carreira algumas pessoas vão perdendo essa habilidade de sentir o outro, de ouvir as pessoas”, observou.

A partir dessa introdução, a magistrada apresentou o conceito de “jurisvivências”, desenvolvido em sua tese de doutorado na USP. Ela explicou que a perspectiva parte da ideia de que as experiências vividas, especialmente por pessoas historicamente marginalizadas, como as mulheres negras, podem ampliar a compreensão do Direito e contribuir para interpretações mais atentas às desigualdades presentes na sociedade. 

Flávia Carvalho, que se tornou magistrada aos 44 anos, também compartilhou experiências pessoais para ilustrar como marcadores sociais como raça, gênero e classe influenciam trajetórias profissionais e percepções sociais. “Quando se nasce uma menina preta, pobre e periférica, há lugares que a sua imaginação não alcança. É muito difícil sonhar com o que você não sabe que existe”, disse, reforçando que a busca pela carreira foi uma questão de sobrevivência, e não sonho.
 

Desafios éticos e transformação social
 

Na parte final da palestra, a juíza relacionou essas reflexões aos desafios contemporâneos trazidos pela tecnologia e pela inteligência artificial, ressaltando a necessidade de repensar valores humanos e institucionais.

“O que significa ser humano?”, questionou, emendando que, em seu entendimento, a resposta passa pela capacidade de reconhecer as desigualdades históricas e de agir para superá-las.

“É certo que estamos diante de uma revolução. Nada vai ser como antes”, afirmou, concluindo que esse processo também exige que instituições se comprometam a reconhecer todas as pessoas como plenamente humanas e dignas de consideração.
 

Três mulheres e um homem sentados à mesa de um evento
A partir da esquerda: Maria Beatriz Gubert, Teresa Cotosky, Mirna Bertoldi e Armando Zilli

 

Espaço de diálogo
 

A abertura do evento foi feita pela diretora da Ejud-12, desembargadora Mirna Bertoldi, que ressaltou o papel da Escola Judicial como espaço de formação e troca de experiências.

De acordo com a magistrada, a instituição vai além do aperfeiçoamento técnico. “Ela é, sobretudo, um lugar de encontro de ideias, de experiências e gerações. O espaço onde aprendemos uns com os outros e onde reafirmamos continuamente o sentido público da nossa missão”, afirmou.
 

Contribuição das mulheres


Na sequência, a presidente do TRT-SC, desembargadora Teresa Cotosky, destacou a contribuição das mulheres para o funcionamento e o aprimoramento da instituição.

“Agradeço às magistradas, servidoras, estagiárias, aprendizes e terceirizadas que, sem prejuízo dos seus múltiplos papéis, contribuem com as suas ideias e vivências não só para o regular funcionamento do tribunal, mas também para o aprimoramento dele”, afirmou.

A presidente também ressaltou que o Dia Internacional da Mulher deve ser um momento de reflexão coletiva. “Desejo que o dia 8 de março seja efetivamente um momento em que se reafirme a união e a solidariedade entre as mulheres, além de uma oportunidade de refletirmos sobre as lutas e as conquistas das mulheres ao longo da história”, ressaltou.

Além das desembargadoras Teresa Cotosky e Mirna Bertoldi, a mesa de abertura contou ainda com falas da vice-diretora da Ejud-12, juíza Maria Beatriz Vieira da Silva Gubert, e do coordenador pedagógico, juiz Armando Luiz Zilli.
 

Evento 

Promovido em alusão ao Dia Internacional da Mulher, o evento foi realizado pela Ejud-12 em parceria com o Programa de Equidade e com o Programa de Enfrentamento ao Trabalho Escravo e ao Tráfico de Pessoas (Pete+), sendo voltado a magistrados, servidores, estudantes e ao público em geral.


 

Texto: Carlos Nogueira
Secretaria de Comunicação Social  
Divisão de Redação, Criação e Assessoria de Imprensa 
(48) 3216-4000 - secom@trt12.jus.br 

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